Fragmentária

 


de Ana Claudia Araújo de Lima


Antes de abrir os olhos, senti na boca o gosto amargo que vinha do estômago e ouvi sua voz firme e carinhosa chamando meu nome:

– Está na hora de acordar. Fiz um chá de cidreira para você. Tem que tomar enquanto está morno. Vem, vamos levantar e sair um pouco deste quarto!

O corpo pesado parecia não ser meu. O quarto tinha pouca luz e era pequeno, mas hoje parecia menor ainda. Estranhei o silêncio da casa e logo imaginei que meus irmãos deviam estar na escola. Mamãe não me acordou porque devo ter passado mal durante a noite. O lado bom de ficar doente é poder estar com ela por mais tempo e só para mim.

– Estou fazendo uma canjinha bem aprumada para o almoço. A galinha já está no vinho d'alho e daqui a pouquinho vou colocar para cozinhar.

A manhã já estava alta. Na cozinha, a luz do sol chegava mais intensa e o mormaço era mais forte, porque se juntava com a quentura vinda da brasa do fogão. O peso dos olhos sonolentos não me deixava abri-los totalmente. Ela me ajudou a acomodar meu corpo na cadeira, colocou a caneca de barro na minha frente e eu sentia o cheiro adocicado da cidreira, enquanto ela se afastava, quase flutuante, para continuar sua tarefa entre o jirau e o fogão. Ela cantarolava e falava qualquer coisa que eu não compreendia muito bem. Devia estar contando alguma novidade sem importância, apenas para tentar me manter acordada e atenta. Eu queria responder. Na verdade, em minha imaginação estávamos conversando, porém, eu não ouvia minha própria voz, pois não conseguia dizer as palavras para fora.

Sentia o chá percorrer um caminho dentro de mim até chegar aonde estava a dor e abraçá-la gentilmente. Com o alívio, queria lhe dizer aquela palavra bonita, mas como é que se diz mesmo? Ela continuava falando comigo lá do fogão, sua voz seguia o ritmo suave de quem conta uma história na hora de dormir, como aquelas que ela trazia de cabeça e falavam de uma amiga que falecera, de outra que fora morar na cidade, de uma conhecida que fugiu do marido que lhe batia, da filha de uma vizinha que era muda, mas desatou a falar depois do primeiro beijo. Eram histórias que, antes de me fazer dormir, me intrigavam e me inquietavam, porque eu nunca tinha certeza se eram verdadeiras ou não.

Meus olhos se fecharam para que eu a ouvisse melhor, mas sua voz se distanciava. O cheiro da cidreira, quase se esvaindo, se misturava agora ao cheiro ácido dos temperos que ela jogava na panela grossa de alumínio. Ouvia a colher de pau se arrastar contra o fundo da panela e quase podia ver a mistura úmida e colorida, de tomate, chicória, cebola e alho, dançando à sua regência, para refogar sem queimar. Já pressentia o gosto da canja que ainda não existia. O calor foi se tornando mais intenso e os sons, mais confusos dentro da minha mente. Os pensamentos pesavam umidamente, como se também estivessem sendo revirados na panela grande e grossa. A cabeça queimava, a barriga queimava, o mundo inteiro girava e queimava. O amargor quente brotou em uma fisgada virulenta dentro de mim e subiu violento até a garganta. Tentei expulsá-lo em forma de grito, mas o que se soltou da minha fraqueza não passou de um gemido abafado.

– O que foi? Está doendo?

Abro os olhos finalmente, completamente... Estranho os objetos que estão à minha volta. Entre confusa e assustada, demoro a entender o que ela está me perguntando. Sentada ao meu lado, seu rosto está tão perto do meu que preciso ajustar o olho para enxergá-la melhor. Quem é essa? Não a reconheço. Confusa e sem forças, deixo apenas o olhar cair até minha mão e ali, sobre a mesa, vejo duas mãos estranhas, uma sobreposta à outra. A de pele clara e lisa talvez lembre a pele de mamãe. A outra, de tom amarronzado é pequena, mas grossa, de dedos nodosos e rígidos, coberta por uma pele flácida e encarquilhada, com linhas que se entrecruzam e sobem em direção ao braço, igualmente flácido e envelhecido. A sensação de estranhamento cresce, quando concluo que é por aquela mão deformada que recebo o toque da outra mão, que busca me acalentar em sua umidade. Como pode aquela mão ser a minha? Será um delírio de febre? E a minha mãe, onde será que está?

– Vó, tá tudo bem? A senhora quer uma água?

Com quem ela está falando? A "senhora" sou eu? Olho os detalhes em volta e já não vejo o fogão de barro, as paredes não são feitas de taipa, o chão não é batido, tudo é branco e brilhante. Onde está a panela grande e empretecida pelo fogo? Onde está minha mamãe?

– Eu quero ir para minha casa. Minha mãe está me esperando e já deve estar preocupada! – Consigo dizer com firmeza.

Mas a mulher parada ao meu lado continua me olhando com a mesma tranquilidade com que minha mãe me olhava, sempre que eu fazia alguma malcriação.

– Tudo bem, vó! Depois do almoço a senhora pode ir para sua casa. Mas primeiro vamos tomar um banho e ficar bem cheirosa para ver sua mãe. Está bem?

Vó? Eu sou a sua vó? Uma fisgada na mente tenta me responder. A dor no ventre, um bebê, um beijo, uma dança, a fogueira, muitas crianças, um homem, outros tantos, a água gelada do igarapé, alguém que me amou de verdade. O rio, o barco, a lua, farinha, pilão, sal... só. Esses fragmentos são a minha vida? Quero segurar uma dessas lembranças e desfiar até encontrar o fio que vai me contar a minha história. Mamãe bem que saberia me contar, ou quem sabe essa mulher, que me chama de vó e tanto lembra minha mãe.

E se ela me contar as histórias que esqueci, será que vou saber se são verdadeiras ou não?


CONHEÇA A AUTORA

Ana Claudia Araújo de Lima

Sou conhecida como Ana Araújo, uma parapixaba que veio do Pará para o Espírito Santo, há 24 anos. Sou formada em Letras-Português pela Ufes e trabalho como técnica-pedagógica na Sedu. Atualmente, sou aluna do Mestrado em Ensino de Humanidades no Ifes. Também sou mãe de duas crianças lindas, o Heitor, de 6 anos e a Maria, de 13 anos. Tenho paixão pela literatura e persigo a escrita há bastante tempo.

Instagram da autora: https://www.instagram.com/anac.araujolima/

 

Para conhecer mais sobre o projeto onde esse conto foi desenvolvido acesse o perfil do Grupo Beta de Teatro e da atriz e escritora Lorena Lima.

Instagram Grupo Beta de Teatro: https://www.instagram.com/grupobetadeteatro/

Instagram Lorena Lima: https://www.instagram.com/lorenalima_atriz/

A 2ª edição da Oficina de Produção de Contos Femininos Autoficcionais, onde esse conto foi desenvolvido, é uma ação cultural aprovada no Edital nº 04/2023 – Valorização da Diversidade Cultural Capixaba, fomentada na Linha 3: Incentivo à Leitura, da Secretaria da Cultura (Secult).

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